Últimos da natação, africanos se assustam com assédio, se complicam no inglês e fogem
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José Ricardo Leite

Do UOL, em Londres (Inglaterra)

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  • AFP PHOTO / CHRISTOPHE SIMON

    Pelotão africano pula na piscina em eliminatória dos 50 m

    Pelotão africano pula na piscina em eliminatória dos 50 m

Eles são quase que sempre o primeiro pelotão de nadadores a cair na piscina nas fases eliminatórias. Fazem tempos muito ruins e nem sonham em avançar às finais. Mas ainda assim são aplaudidos entusiasticamente pelos torcedores presentes no Centro Aquático do Parque Olímpico de Londres.

Estes são os nadadores africanos, que logo depois de competirem demonstram pouca intimidade e preparo com o mundo olímpico e se assustam quando são procurados por jornalistas em uma zona mista aglomerada de profissionais que se concentram quase que sempre em nomes como Michael Phelps e Ryan Lochte.

Ao contrário da grande maioria dos nadadores, estes africanos não falam inglês e são de nações em que ele não é a língua oficial. Não aprenderam a ponto de conseguirem fazer uma entrevista. O que faz com que se sintam ainda mais amedrontados.

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David Boudia e Nicholas McCrory, dos Estados Unidos, caem na piscina após salto na prova de 10m do nado sincronizado Imagem: REUTERS/David Gray

Wilfried Tevoedjre, do Benin, país de língua francesa, levou um susto ao ver que cerca de cinco jornalistas lhe esperavam para tentar uma entrevista. Ele tem 33 anos e foi o último das eliminatórias dos 50 m, com o tempo de 29s77. O melhor tempo dessa eliminatória foi 21s77.

ATLETA DE UGANDA FALOU

  • Um dos poucos a falar inglês, Ganzi Mugula treina em clubes

"Français, français", repetiu o nadador ao tentar ser questionado em inglês. Fez um sinal de negativo em relação a entender os questionamentos e deu a entender que voltaria depois. Foi embora a passos largos e não retornou.

Christian Nassif, da República Centro Africana, também um dos últimos dos 50 m, olhou com medo, sorriu e se mandou rapidamente.

O último colocado da bateria dos 100 m livre, Beni Bertrand Binobagira, apontou com o dedo indicador para si questionando se era ele mesmo que estava sendo chamado para uma entrevista. Em uma mistura das duas línguas, disse, em francês, que não sabia falar inglês.

Com a ajuda de um jornalista ao lado que falava francês, Binobagira foi perguntado se fazia alguma outra atividade em seu país, o Burundi. "Não, diga que moro na França, diga que moro na França", falou o competidor. Questionado como foi para lá e como são seus treinos, a resposta veio pelo interlocutor. "Ele disse que precisa ir embora", falou. E foi.

Mohamed Elkheder, do Sudão, que disputou os 50 m, foi um dos poucos a tentar se aventurar em dar uma entrevista sem saber falar inglês. Mas só divertiu os repórteres ao sorrir e tentar um esboço de resposta usando gestos e os braços. Foi perguntado de qual região do Sudão era e o que tinha achado de sua performance. 'French [francês]', foi a única palavra dita em meio aos questionamentos.

Até que Ganzi Mugula, de Uganda, demonstrou um inglês afinado e foi o único do 'pelotão de últimos' a conseguiu dar entrevistas, afinal seu país fala inglês. Ele não chega a ser um grande aventureiro, já que nada desde 99. Também trabalha como técnico de computação em um banco na cidade de Namirembe.

Disse ter ficado satisfeito com seus  27s58 nos 50 m. Lamento, mesmo, só pela falta de condições para treinar em sua cidade, já que não tem um centro esportivo de federação para isso. "Treino em escolas, clubes e hotéis. É a solução", falou.

A maioria dos nadadores africanos com baixas condições técnicas são, no entanto, oriundos de nações das regiões centrais do continente. A África do Sul, por exemplo, tem nadadores de expressão no cenário no mundial e até conseguiu duas medalhas de ouros nos Jogos Olímpicos de Londres, com Cameron Van Der Burgh, nos 100 m peito, e Chad Le Clos, nos 200 m borboleta.

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