Dedo de técnico ganha jogo? Medalhas brasileiras mostram que, em Londres, sim

Gustavo Franceschini e José Ricardo Leite
Do UOL, em Londres (ING)

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    Albertinho, Rosicleia Campos e Luiz Shinohara, os técnicos medalhistas

    Albertinho, Rosicleia Campos e Luiz Shinohara, os técnicos medalhistas

Sarah Menezes saiu chorando do dojô no Complexo ExCel e pulou sobre a técnica Rosicléia Campos. “Ela é muito importante”, disse a piauiense, a primeira atleta do Brasil, homem ou mulher, a conquistar uma medalha de ouro no primeiro dia de uma Olimpíada. A cena, e toda a emoção que envolveu Sarah e Rose, mostra que, pelo menos em Jogos Olímpicos, o dedo do técnico tem uma importância enorme.

Nas três vezes que um brasileiro subiu ao pódio no sábado, três técnicos diferentes tiveram papeis determinantes nas conquistas: Rose, para Sarah, Alberto Silva, o Albertinho, para Thiago Pereira, e Luiz Shinohara, para Felipe Kitadai.

Força feminina

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O papel de Rose no triunfo do último sábado foi bem mais discreto do que o que a própria gostaria. Em Londres-2012, novas regras da Federação Internacional de Judô proibiram manifestações mais exaltadas dos treinadores e a ex-judoca acabou mais calada do que o costume. Mas, mesmo em voz baixa, sua influência foi gigante.

A revolução do judô feminino nacional pode ser totalmente creditada ao trabalho de Rose. Ela foi a responsável por separar as preparações de homens e mulheres, ajuste que permitiu um trabalho mais personalizado para as judocas. Os resultados começaram a aparecer no ciclo do Pan-Americano do Rio, em 2007, mas explodiram a partir dos Jogos de Pequim.

Na China, Ketleyn Quadros conquistou uma medalha de bronze, a primeira do judô feminino. Depois, em Mundiais, as “meninas da Rose” acumularam cinco pódios, duas com Sarah e Mayra Aguiar, uma com Rafael Silva. “Ela é mãezona, cuida de todo mundo”, resume a nova campeã olímpica.

Mostrando o caminho

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Se o caminho do sucesso das judocas foi a independência, na natação o segredo para vencer o mito Michael Phelps foi a união. E o responsável por isso é um técnico baixinho, barbudo, às vezes carrancudo e com um currículo único no país. Albertinho já treinou Gustavo Borges, lapidou Cesar Cielo na juventude e para um recorde mundial. E agora levou Thiago Pereira à medalha olímpica.

Para isso, trouxe o nadador para uma equipe de talentos da natação brasileira, o PRO 16. O principal benefício foi Cesar Cielo, que lembra de um lado menos esforçado do então recém-chegado “O Thiago chegou para treinar com a gente com alguns detalhes que estavam viciados, preguiçosos. Estava um pouquinho difícil vê-lo fazer certos errinhos e deixar passar. O Nicholas [Santos] também é assim. Quando a gente pega para fazer trabalho de técnica, de correção, o Nicholas é um cara que confio muito. E a gente deu bastante toque no Thiago, acho que isso acabou melhorando a nossa relação”.

Thiago Pereira
Thiago Pereira

A frase é de Cielo ainda no ano passado, durante o Pan de Guadalajara, mas mostra a diferença de postura. Desde que começou a treinar com Albertinho, o foco de Pereira também mudou. Passou a falar em conquistar a medalha de ouro, não uma medalha qualquer. Mesmo sabendo que tinha Michael Phelps pela frente. “Se você treinar para chegar em segundo ou terceiro, já era”, passou a afirmar Pereira.

Trabalho duro

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A teoria foi a mesma usada para o bronze de Felipe Kitadai. Mas com uma diferença importante. Nos dois casos, o talento era evidente, mas era preciso lapidar. Algo que Luiz Shinohara, o Jun, não encontrou. Após o Mundial de 2009, o treinador, que foi um dos maiores ligeiros (a mesma categoria de Kitadai, até 60kg) que o país já produziu, admitiu que a categoria estava vazia.

Restava, então, buscar entre os garotos por talentos ainda brutos que pudessem ser lapidados. Jun convocou um grupo de quatro judocas e passou a fazer treinos regulares em São Paulo com a elite da categoria. “O resultado é em função da atenção que a gente está dando para cada categoria. O atleta se sente realizado com isso. Como é um grupo menor, dá para trabalhar com ações mais específicas e o atleta se motiva bastante com isso”, afirmou Shinohara no ano passado, quando Kitadai conquistou o ouro no Pan de Guadalajara, o primeiro do país desde 1987.

O trabalho do descendentes de japoneses, porém, não foi o único “dedo de técnico” que influiu no bronze de Kitadai, o primeiro pódio de toda a delegação brasileira na Inglaterra. Após se firmar na elite da categoria, ele foi convidado para ir para a Sogipa, no Rio Grande do Sul, treinar com Antônio Carlos Pereira, o Kiko.

O gaúcho foi responsável pela transformação de João Derly em bicampeão mundial e pela formação da vice-campeã mundial Mayra Aguiar (líder do ranking das meio-pesadas e favorita a medalha em Londres), além de ter treinado Tiago Camilo no título mundial de 2007. No Sul, Kitadai uniu a eficiência técnica do judô japonês, lapidado em São Paulo, com a força do judô gaúcho, de muito mais raça. 



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