Atletas paraolímpicos se flagelam para melhorar desempenho

Matt McGrath

Da BBC, em Londres

  • Anthony Devlin - WPA Pool/Getty Images

    Primeiro-ministro britânico, David Cameron, conversa com membros da delegação paraolímpica do país

    Primeiro-ministro britânico, David Cameron, conversa com membros da delegação paraolímpica do país

Você seria capaz de quebrar o próprio dedo para ganhar uma medalha paraolímpica? Cortar-se com um objeto pontiagudo ou apertar os próprios testículos? Isso é considerado trapaça, mas um cientista que vai monitorar os atletas nos Jogos Paraolímpicos de Londres afirma que um terço dos competidores com lesões na coluna se autoflagelam para melhorar o próprio desempenho.

A prática é chamada de "boosting" (algo como "empurrão", em tradução livre), e é usada para aumentar a pressão sanguínea e melhorar a performance em esportes. Esse tipo de prática é proibida pelo Comitê Paraolímpico Internacional (CPI), mas alguns pesquisadores dizem que isso pode ser comum entre alguns atletas.

"Houve vezes em que eu dava uns bons choques na minha perna ou nos dedos do pé", diz Brad Zdanivsky, escalador canadense tetraplégico que usou técnicas de boosting na sua academia. "Isso fazia a minha pressão sanguínea saltar e assim eu conseguia levantar mais pesos e me mover mais rapidamente – é um método eficiente".

Boosting

Um jornalista britânico que há anos cobre os Jogos Paraolímpicos disse, sob condição de anonimato, que já ouviu falar de atletas que usam pequenos martelos para fraturar ou até mesmo quebrar os dedos dos pés.

Quando atletas sem problemas físicos praticam esportes intensos, como natação e corrida, a pressão sanguínea e o batimento cardíaco saltam imediatamente. O mesmo não acontece com atletas com lesões na coluna. O "boosting" é um atalho para se obter pressão sanguínea maior e melhorar o desempenho no esporte.

Zdanivsky ficou tetraplégico em 1994, mas quis continuar com sua paixão, a escalada.

"Tentei várias formas de boosting. Você pode deixar sua bexiga encher – essa é a forma mais fácil e mais comum. Depois você se livra rapidamente do estímulo da dor ao deixar a urina sair", conta. "Eu fui mais adiante e usei estímulos elétricos nas minhas pernas, nos dedos dos pés e até mesmo nos meus testículos".

No entanto, essa técnica de melhorar o desempenho esportivo cobra o seu preço. "Você chega a níveis de pressão sanguínea que podem facilmente estourar uma veia atrás do olho ou provocar um derrame", diz. "Isso pode até parar o coração. É muito desagradável, mas os resultados (de melhor performance) são dificeis de se ignorar".

Desvantagem

O CPI já conhece há anos os perigos do boosting, e desde 1994 a prática é proibida nos Jogos Paraolímpicos. Mas ainda há poucos estudos científicos que exploram as consequências deste método.

Um levantamento estatístico feito pela CPI após a Paraolimpíada de Pequim revelou que 17% dos entrevistados confessaram ter feito algum tipo de "boosting". Para Andrei Krassioukov, professor da Universidade de Colúmbia Britânica (Canadá) que vai monitorar os competidores de Londres 2012, o número real pode chegar a 30%.

"Como médico, posso dizer que as pessoas gostam de se sentir bem – e elas se sentem melhor com pressão sanguínea mais elevada. Mas outra coisa que motiva é a vontade de ganhar".

Muitos atletas com lesões na coluna têm baixa pressão, mas existe muita variação entre cada caso.

"Ainda existe muita desvantagem entre paraolímpicos que possuem pressão normal em relação àqueles que (a adulteram)", diz Krassioukov. "Como médico, eu entendo completamente aqueles que fazem boosting, mas como cientista ficou horrorizado com isso."

Mudança de critérios

Para o médico, a solução é mudar os critérios usados para classificar os paratletas em modalidades conforme o nível de deficiência. Atualmente a classificação não leva em consideração a pressão e o batimento cardíaco.

O CPI, porém, disse que não tem nenhum plano de mudar seus métodos no futuro próximo. "A qualificação paralímpica de atletas com deficiências físicas é feita com base em limites neuro-musculares-ósseos, e não em limites fisiológicos", diz Peter Van de Vliet, que é a maior autoridade médica do CPI.

Durante os Jogos Paraolímpicos de Pequim, o CPI conduziu cerca de 20 exames de pressão sanguínea antes das competições. A entidade disse que não identificou nenhum sinal claro de boosting.

A prática continuará sendo monitorada durante os Jogos Paraolímpicos de Londres. Qualquer sintoma suspeito – como suor excessivo, manchas na pele ou pele arrepiada – poderá levar a um exame de pressão. Quem estiver com a pressão muito acima do normal não poderá competir. Mas não haverá nenhum tipo de punição mais severa.

Para Brad Zdanivsky, a medida não será suficiente. Ele acredita que apenas um controle de longo prazo da pressão dos atletas levará a um sistema eficaz de monitoramento. Ele teme que apenas uma tragédia – como um acidente grave durante alguma competição – poderá provocar uma mudança definitiva.

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