Laís deixa cirurgias, fase "gostosa" e namoro para trás, foca Londres e pede seleção veterana

Gustavo Franceschini e Paula Almeida
Em São Paulo

  • Paula Almeida/UOL

    Laís Souza, ginasta do Pinheiros, que está se recuperando e ainda sonha com Londres

    Laís Souza, ginasta do Pinheiros, que está se recuperando e ainda sonha com Londres

Laís Souza foi, durante anos, a principal esperança da ginástica artística brasileira para o futuro. Hoje, experiente aos 22 anos, ela se recupera da nona cirurgia e quer voltar a competir. Na fase longe dos tablados, por quase um ciclo olímpico inteiro, a ginasta conta, em entrevista ao UOL Esporte , que aproveitou uma vida normal de uma jovem: engordou (ficou "gostosa" nas suas palavras), saiu com amigos e namorou pela primeira vez.

Se voltar a tempo, pode ir a Londres para, entre outras coisas, ajudar a seleção atual a resolver a crise que abalou a equipe no Pan de Guadalajara. “Não sei como vai ficar se em algum momento eu entrar. Não sei se vou puxar a orelha delas, se elas vão ficar bravas comigo. Se forem quatro meninas adultas, já é uma força maior. Eu, a Dai [Daiane dos Santos], a Dani [Hypolito] e a Jade [Barbosa], a gente se conhece”, disse Laís Souza, que está com uma placa e sete pinos no joelho esquerdo, mas pretende voltar a competir em março de 2012.

  • Paula Almeida/UOL

    Joelho esquerdo de Laís após a terceira cirurgia seguida; ginasta quer voltar no começo de 2012

Para ir aos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, ela precisa que o time brasileiro, sem ela, se classifique no Pré-Olímpico que acontecerá em janeiro. Sua ausência se explica pelas seguidas lesões que teve desde 2008, mas também por um desejo pessoal por uma folga.

Depois de anos de “concentração” em Curitiba, com a seleção permanente, Laís decidiu parar com a ginástica. Viveu seu período de liberdade, engordou e teve trabalho para voltar aos treinos quando decidiu retomar a ginástica. 

Leia abaixo os principais trechos do bate-papo e descubra o que aconteceu com Laís Souza no período distante da seleção:

UOL Esporte: São nove cirurgias na carreira e mais de três anos sem competir. Você acha que ainda tem condição de ir a Londres?
Laís Souza:
Eu comecei a treinar há pouco tempo. Quero recuperar tudo até fevereiro que é quando começam os Nacionais. Eu não acho que vou voltar espetacular, fazendo coisas que eu nunca tinha feito. Quero o que eu fazia antes, com uma ginástica que possa chamar a atenção dos árbitros brasileiros e internacionais.

UOL Esporte: Você passou toda a sua adolescência na seleção permanente, em Curitiba. Como é viver nesse regime de concentração nessa fase da vida?
Laís Souza:
Foi bem complicada, mas eu tracei uma linha. Meu objetivo ficava dentro do ginásio. Assim que acabou Pequim eu estava livre. E eu decidi que ia parar. Foi como se fosse pirar. Eu comi o que eu queria. Fui para a casa da minha mãe e ela cozinhou para mim. Até namoro, porque a gente não tinha tempo de namorar. Minhas amigas estavam namorando há dois anos e eu não tinha nem ficado com um cara. Essas coisas vieram para tirar a gente de uma casca de um ovo. Foi um aprendizado.

UOL Esporte: Em algum momento você acha que exagerou?
Laís Souza:
Não acho que eu exagerei. Procurei alguns amigos que estavam passando na mesma coisa. Posso ir na balada no sábado? Posso. No domingo? Posso também. Aí acordo um pouco mais tarde na segunda. Foi assim até que fui retomando a rotina que eu queria. Hoje eu sei que não preciso mais treinar 9 horas seguidas. Eu não preciso repetir dez vezes, posso repetir três bem.

UOL Esporte: Hoje você tem uma rotina equilibrada. Acha que esse modelo poderia ser aplicado a meninas mais novas para que elas não sofressem como vocês?
Laís Souza:
Olha, comida é essencial. Eu cuido da minha alimentação em todo esse tempo. E o namoro fica em segundo plano. Se você quer um objetivo de Olimpíada tem de ser assim, rígido. Não é só dar uma segurada fora, mas dar um gás no ginásio. Se você treina 50% hoje, no ano olímpico tem de dar 100% todos os dias, e é cansativo. É repetitivo.

UOL Esporte: Como você viu a atuação da seleção no Pan e no Mundial de Tóquio, que aconteceu pouco antes?
Laís Souza:
O nível de ginástica delas não está diferente das americanas e chinesas. Não é que eu faço dois mortais e ela faz três. Está bem igual. O que faltou foi um pouco de equipe. Faltou elas estarem mais unidas e mais guerreiras. Não sei como foi o treino antes, mas acho que não foi bem treinado. Faltou um pouco de repetição para chegar na hora e fazer com qualquer condição. No Pan, estar cansada fez muita diferença. Nosso erro é mínimo, mas conta ponto.

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UOL Esporte: E a convivência após 45 dias também não estava fácil...
Laís Souza:
É complicado você conviver com irmãos, com a sua mãe. Sempre tem uma briguinha. Da parte delas também teve. Mas não acho que tinham de ter perdido a cabeça em 45 dias. Teve alguma coisa que fez aquele grupo entrar em um estresse. Tem de descobrir o que está acontecendo. [Elas têm de] conversarem mais, treinarem mais tempo antes. Eu compito sozinha na paralela, mas preciso que elas me ajudem a passar a lixa na barra. E às vezes aquilo não está automático. O fato de ter treinado um ou dois meses juntos poderia fazer a diferença.

UOL Esporte: Se pudesse votar, escolheria pela volta da seleção permanente ou pela sequência nos clubes?
Laís Souza:
O clube precisa do atleta, do espelho para os mais novos. Mas em um ano olímpico ou pré-olímpico, talvez valha a pena juntar todo mundo um tempo antes para ficarem mais tranquilas. Essas coisas contam. Eu daria minha opinião dessa forma. Treinar um tempo mais longo juntas perto dos grandes eventos.

UOL Esporte: Você coloca Rio-2016 nos seus planos.
Laís Souza:
Acho que sim. Depois de 2012 eu vou estar mais preparada. Vou poder selecionar as competições que eu vou querer ir. Vão ser algumas decisões tomadas com mais maturidade. Eu tenho planos a longo prazo, mas com objetivos curtos. De competição em competição, de treino em treino.

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UOL Esporte: Você é amiga das meninas que estão na seleção, como a Daiane dos Santos e a Daniele Hypolito?
Laís Souza:
Depois que a gente se conheceu ficou um companheirismo, uma amizade quase de irmã. Eu vou para o Rio de Janeiro eu durmo na Jade, vou na Dani. Com o Diego [Hypolito] é a mesma coisa. Com a Juliana [Santos], que está em Porto Alegre, é a mesma coisa. Com certeza eu tenho de passar na casa da Ju.

UOL Esporte: Como é a vida de vocês fora do dia a dia do esporte? Vocês têm muitas limitações na vida social como, por exemplo, não poderem beber?
Laís Souza:
Tem de tomar cuidado. Não vou dizer que nunca experimentei. Uma vodca, um energético. Tive a minha fase. Mas hoje em dia não dá pra ficar deixando a desejar. Atrapalha no peso, na dedicação aqui [no ginásio]. Eu procuro ficar na minha, as meninas também.

UOL Esporte: Você mesma falou sobre o período em que você engordou. Como foi essa fase? Você chegou a ficar deprimida?
Laís Souza:
É complicado porque ginasta já é estressada com balança. Ginasta mulher, então, é demais. Eu olhava no espelho e ficava um pouco incomodada. Falava: ‘gente, e não estou com corpo de ginasta. Não é normal ter essa gordurinha’. Para uma vida normal eu estava, digamos, gostosa. Forte, mas com um pouquinho de gordurinha. Se eu ia à praia eu não me sentia mal. Mas se ia ao ginásio e vestia um collant, aí sim. Então eu ficava nessa briguinha de olhar no espelho e sentir bem, mas não para a ginástica. Porque a gente é um exagero de magreza e de músculos.

UOL Esporte: Você se incomoda com esse excesso de magreza? As pessoas reconhecem em um você um corpo de ginasta?
Laís Souza:
Se eu vou ao shopping e estou vestida normalmente a pessoa fala: ‘você é ginasta né? Ah, porque parece. Você é fortinha’. Se eu estou na praia, por exemplo. É mais difícil a mulher ter abdome definido. Então o pessoal fala: ‘nossa como ela é forte’. Eu gosto de ser forte, de ser marcada. Mas não gosto de ser baixa [risos]. A gente tem mania de ficar usando salto. Meninas normais de 23 anos não são dessa altura, a não ser que seja de família. Só isso que me enche o saco. Mas aí usa salto e resolve. 

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