Visões olímpicas

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Eu, favelada, faço um balanço das Olimpíadas

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Mulheres brilharam e quebraram paradigmas na Rio-2016 imagem: REUTERS/Ruben Sprich
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AzMina

Uma revista feminina para mulheres de A a Z - e para homens amigos do feminismo. AzMina é uma entidade sem fins lucrativos cuja missão é usar o jornalismo investigativo, a cultura, as redes sociais e educação para lutar contra o machismo e tornar mais mulheres ainda mais poderosas.

Ana Paula Lisboa*

Os Jogos Olímpicos já deixaram faz tempo de ser uma competição esportiva, para se tornarem além disso, um evento de grandes proporções que envolve decisões políticas globais e muito dinheiro. Para a realização desses dias quase que impecáveis, muitas mudanças aconteceram na cidade olímpica, incluindo remoções cruéis e, não posso deixar de dizer, melhorias. Foi assim que nós, cariocas, chegamos até aqui: preparados para tudo.

Acompanhamos tudo, "sofrendo" às vezes mais, às vezes menos, e ficando perceptível a cada momento qual era a etapa.

Viver numa cidade como o Rio de Janeiro ainda traz as preocupações femininas do dia a dia, do tipo ir ao Parque Olímpico e dizer par a amiga "avisa quando chegar". Mas é inegável que áreas da cidade antes quase "inabitáveis" se tornaram novos pontos de lazer e entretenimento. De forma geral, observei uma cidade muito mais iluminada e segura, ainda que sinônimo de segurança no Brasil seja apenas o aumento do número de policiais.

Não é por acaso que duas mulheres foram baleadas no Complexo do Alemão no último dia 18. Uma delas, Darlene da Silva Gonçalves Correia, faleceu. O Complexo do Alemão está ocupado militarmente desde 2010 e sua "pacificação", assim como o de outras favelas na cidade do Rio, era um legado dos grandes eventos. Mas como se vê, se lê, se ouve, se sente, isso não aconteceu. No mesmo dia, Martine Grael e Kahena Kunze conquistaram o ouro na vela.

Estrelas femininas da Rio-2016 dão sentido à frase "Jogue como mulherzinha"

Foi perceptível também acompanhar as propagandas que tentaram trazer a representatividade feminina, como exemplo, aquela propaganda do achocolatado famoso, que trouxe meninas suadas praticando atividades físicas ao invés dos usuais "uniformes" de princesa.

Existem dentro disso dois bordões universalizados e usados tanto por quem entende tudo, quando por quem não entende nada, mas precisa se fazer de entendido: MEU CORPO MINHAS REGRAS e LUGAR DE MULHER É ONDE ELA QUISER. Os dois, mesmo já tendo sido "incorporados" pela grande mídia, continuam aí, importantes para quem quiser usar.

Que ótimo que continuamos pensando esses bordões e deles surgiu o #QueroTreinarEmPaz e o #MaisQueMusas. Houve quem se surpreendesse com a cobertura das Olímpiadas Rio-2016, mas eu confesso que não. Talvez eu seja muito crente na humanidade, ou muito treteira, seja como for, eu sabia desde o início que comentários machistas e misóginos não passariam desapercebidos em uma competição com 45% de mulheres, um recorde histórico.

Foi importante deixar de ser mulher de alguém, irmã de alguém, filha de alguém, o novo Phelps ou o novo Bolt. E foram as atletas muçulmanas dos Estados Unidos e do Egito, na esgrima e no vôlei de paia respectivamente, que deram aula para o mundo todo de como usar hijab e quebrar estereótipos.

O país do futebol começou a questionar a si mesmo antes até da abertura dos Jogos, quando as competições masculinas e femininas já corriam soltas por várias arenas do Brasil. Foi só aí que resolvemos comparar os salários, o investimento midiático e meritrocrático.

Por fim, enceramos adiando o sonho do ouro feminino por mais quatro anos, mas ainda assim, amando mais que nunca esse time de alegrias e vitórias. O futebol que "não merece Marta e Cristiane", como escreveu Nana Soares, foi o time que nos devolveu o gosto de torcer após o 7x1. Mas que fique claro, você não precisa odiar a seleção masculina (ou o Neymar) pra apoiar a seleção feminina.

Eu torço para que aumentem o número de meninas fazendo esportes inspiradas pela Marta e pela Rafaela e que elas tenham financiamento - isso sim seria um legado olímpico.

* Ana Paula Lisboa tem 28 anos, é a mais velha de quatro irmãos, filha de dois pretos. Moradora do Complexo da Maré, Zona Norte do Rio. Escritora, publicou contos e poesias em coletâneas nacionais e internacionais como a “Estrelas Vagabundas”, “26 novos autores da FLUPP” (Festa Literária das Periferias), “Eu me chamo Rio” e na “Je suis Favela”. Em 2014 recebeu o 1º Premio Carolina de Jesus, dado a pessoas que tiveram suas vidas mudadas pela Literatura. Desde 2012 faz parte da equipe de coordenação da Agência de Redes para Juventude, projeto que tem como missão mudar a relação da cidade com a juventude de favela. E em 2016 passou a escrever para a revista feminista AzMina e para o Segundo Caderno do jornal O Globo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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