Melhor "evento teste" do mundo contribui para sucesso das Paraolimpíadas

Bob Martin for OIS/COI/AFP
Fogos explodem no Maracanã durante cerimônia de abertura dos Jogos Paraolímpicos imagem: Bob Martin for OIS/COI/AFP

Daniel Brito

Do UOL, no Rio de Janeiro

A competição de natação ficou paralisada por mais de 30 minutos na noite de quinta-feira, 15, por causa de um problema na tubulação da piscina. Atrasou o programa de provas, alterou a rotina de premiação, atrapalhou as transmissões de TV. O episódio foi classificado pelo próprio Comitê Organizador Rio-2016 como inaceitável. Porém, em um evento cercado de boas notícias, a falha passou batido no noticiário.

Os Jogos Paraolímpicos-2016 chegaram ao final na noite de domingo, 18, com saldo muito mais positivo do que os Olímpicos, encerrados em agosto. Curiosamente, o sucesso de um está diretamente relacionado aos problemas experimentados no outro.

A Paraolimpíada teve início duas semanas após o fim da Olimpíada, que acabou servindo como evento teste. O melhor evento teste que qualquer competição poderia ter. As falhas no serviços de transportes, no serviço de alimentação do público, de segurança, e até mesmo de estrutura nos prédios da Vila dos Atletas haviam sido quase que inteiramente solucionadas quando os desportistas paraolímpicos desembarcaram no Rio.

“O resultado que as pessoas não esperavam se deu em função do trabalho do comitê e dos governos. Ninguém faz nada sozinho. Enfrentamos obstáculos de descrédito, especialmente na fase final. É evidente que isso entristeceu. Soubemos reagir. O espírito brasileiro de luta deu uma demonstração de modernidade de luta. Não são todos que têm. É esse espírito que nos levou a ter esse resultado”, celebrou Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Organizador dos Jogos-16, em entrevista coletiva no domingo, 18.

O presidente do IPC (Comitê Paraolímpico Internacional, na sigla em inglês), Sir Philip Craven estava com humor bem diferente do que apresentou há um mês. Em agosto ele fez uma entrevista coletiva relâmpago para se queixar publicamente do Rio-2016. O principal motivo: falta de dinheiro para realização das Paraolimpíadas. Chegou a dizer que teria sido a pior preparação de uma cidade sede para receber o evento.

Havia também reclamação quanto à falta de divulgação, o que teria ocasionado a baixa marca de tíquetes vendidos até aquele momento.
Até agosto, os Jogos Paraolímpicos tinham apenas 200 mil entradas comercializadas, de um total de 2,5 milhões. Porém, incrivelmente após o fim das Olimpíadas, o evento para pessoas com deficiência caiu no gosto popular. As vendas subiram gradativamente dia após dia, até bater na casa dos 2,1 milhões.

Em sua coletiva de despedida da Rio-16, no domingo, 18, Sir Craven já estava com humor completamente diferente. “Posso dizer que os Jogos do Rio-2016 surpreenderam a muitos. “É inacreditável dizer que há duas semanas, apenas 200 mil ingressos foram vendidos. Eu gostaria de engarrafar todo o barulho que os cariocas fizeram nas arenas e levar para todas as arenas paraolímpicas do mundo”, elogiou o dirigente inglês.

A superação na venda de ingressos também é motivo de celebração para o Comitê Organizador. Eles receberam R$ 150 milhões da prefeitura do Rio em forma de convênio, mas utilizou R$ 30 milhões para pagar passagens de atletas, técnicos e os cavalos dos Jogos Paraolímpicos. O restante, de acordo com o Comitê, não foi utilizado e deve ficar com a prefeitura. Além disso, recebeu patrocínio de quatro empresas estatais, a pedido da Casa Civil da Presidência da República: Loterias Caixa, Embratur, Apex e Petrobras. Seria uma maneira de cobrir o rombo pela, até então, baixa venda de ingressos. Como a comercialização terminou vingando, a Rio-16 celebra um orçamento equilibrado “com apenas 1% de dinheiro público”. Não está claro se o Comitê devolverá os R$ 30 milhões do convênio.

Além do episódio da bomba de água da piscina, na noite de quinta-feira, 15, os Jogos Paraolímpicos registraram um momento trágico. A morte do ciclista iraniano Bahman Golbarnezhad na prova de estrada, no final da manhã de sábado, 17, após acidentar-se em uma curva numa descida de Grumari. O Comitê Organizador garante que seguiu todos os protocolos de atendimento, com todos os equipamentos e equipe médica necessária, porém não foi possível evitar a tragédia - classificada como um “acidente”.