! Depressão e síndrome do pânico: O drama de quem perdeu a casa nos Jogos - 11/08/2016 - UOL Olimpíadas

Olimpíadas 2016

Atualizada em 11.08.2016 11h50

Depressão e síndrome do pânico: O drama de quem perdeu a casa nos Jogos

Luiza Oliveira

Do UOL, no Rio de Janeiro

Quem olha para Cenira do Santos Pereira logo simpatiza com seu jeito extrovertido e sorriso fácil. Com ombros à mostra e blusa vermelha, ela circula pelo condomínio Parque Carioca como dona do pedaço, já que todo mundo a conhece. Mas bastam cinco minutos de conversa para o semblante se transformar. Logo ela lança um olhar distante, com uma tristeza profunda. Não demora para as lágrimas escorrerem. É a prova de que nada está bem.

Cenira foi uma das quase 800 pessoas que perderam o lar na Vila Autódromo por causa da Olimpíada do Rio. Desde então, sua vida se transformou em um drama. A casa e a pensão que construiu com anos de suor foram derrubadas. Ficou sem o sustento e agora vive das economias que ainda restam. Para piorar, a decisão sobre onde morar acabou provocando uma briga na família, e hoje ela não conversa com vários parentes.

O baque foi forte demais. Ela entrou em um quadro profundo de depressão e confessa: perdeu a vontade de viver.

“Hoje em dia tenho depressão. Tem dia que não consigo ver ninguém, não quero falar com ninguém, fico trancada. No primeiro mês [após a remoção] eu só chorava. Não descia, não queria ver ninguém, tinha dia que tomava banho, tinha dia que não tomava, tinha dia que me alimentava, tinha dia que não me alimentava e tinha dia que só chorava”, disse. “Não estava mais dormindo, não tinha mais vontade de viver, de fazer nada, estava sempre na emergência do hospital, fiquei tomando tarja preta”, lembra.

Rodrigo Ferreira/UOL
Cenira foi uma das moradoras removidas da Vila Autódromo por conta das obras da Rio-2016 imagem: Rodrigo Ferreira/UOL

O abalo psicológico não é exclusivo de Cenira. Inclusive se tornou muito comum entres os removidos. A dona de casa Gene Lopes da Silva também se mudou para o condomínio Parque Carioca e ainda passa por fortes problemas de depressão. Até hoje, ela faz tratamento e relata visitas regulares ao hospital. Chega a gastar R$ 600 em medicamentos por mês. “Não consigo dormir, já fui ao médico, fiz exame. Até hoje não consegui ficar boa”, disse.

As cicatrizes emocionais foram desencadeadas por um processo de remoção que durou anos. Os moradores relatam uma forte pressão psicológica feita pela prefeitura, com direito a ameaças e até agressões físicas contra quem resistisse. O Estado tinha pressa para tirar as famílias dali e construir as obras olímpicas.

“Passamos por momentos terríveis. Fomos violentados de todas as maneiras. Tinha dia que eles chegavam e falavam: ‘vamos derrubar a casa de fulano’. As pessoas foram feridas. Teve gente que saiu com olho roxo, cabeça quebrada. Passamos por muita humilhação. Os guardas chegavam e diziam: ‘vamos entrar, vamos entrar’. Quem resistisse, saía machucado. Passamos pela humilhação de ver o trator passando pela nossa casa, derrubando a casa ao lado. Cortaram água, luz, a gente viu acúmulo de rato, mosquito. Fomos obrigados a aceitar o ‘Minha casa, Minha vida’", conta a aposentada Sônia Ludovice Nascimento.

A mãe de santo Heloisa Helena sabe os maus bocados que passou no processo de remoção. Ela tinha um centro espírita e viu todo o material que usava nos rituais do candomblé ir para o lixo. Sem casa e fragilizada, desenvolveu depressão e síndrome do pânico.

“Eles tiraram a minha casa, que era o centro espírita. Falaram que tudo aquilo era lixo. Derrubaram tudo sem nem um pingo de respeito. Passei por muito estresse, problemas psiquiátricos e psicológicos, a prefeitura me deixou esse presente. Por enquanto estou muito traumatizada. Não é fácil passar dois anos sofrendo danos psicológicos e ameaça de morte. Eu tomo ansiolíticos e antidepressivos duas vezes por dia até”, conta Heloisa Helena, que preferiu se isolar e morar em um lugar distante do Rio de Janeiro.

Os removidos da Vila Autódromo relatam casos ainda mais extremos de idosos que chegaram a falecer com problemas cardíacos. Na conta deles, pelo menos sete pessoas morreram por reflexo da desapropriação. “Para algumas pessoas, o baque foi tão grade que tiveram infarto e morreram. O seu Pernambuco faleceu, não aguentou”, conta Sônia.

Procurada pelo UOL Esporte, a prefeitura do Rio de Janeiro não responde às acusações. Mas reforça que apenas parte dos reassentamentos de famílias foi feita por causa das obras do Parque Olímpico e que uma grande parcela teve como principal motivação garantir a proteção das faixas marginais da Lagoa de Jacarepaguá e do rio Pavuninha, áreas de proteção ambiental. A prefeitura diz ainda que uma parte significativa de moradores optou espontaneamente por sair, e que o Parque Carioca representou uma mudança no padrão de vida de muitas famílias.

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