Olimpíadas 2016

O dia em que Robinho gerou crise na seleção ao baixar calção do amigo Diego

Vanderlei Almeida/AFP

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

Naquela manhã de janeiro de 2004, o repórter fotográfico Vanderlei Almeida acionaria uma bomba no hotel da seleção brasileira sub-23, na cidade portuária de Concepción, centro do Chile. O meio-campista Diego estava posando para um fotógrafo da organização do torneio pré-olímpico, que daria duas vagas nos Jogos de Atenas, quando viu Robinho se aproximar dele sorrateiramente.

Robinho tinha 19 anos; Diego, 18. Vanderlei Almeida, 25 só de cobertura esportiva. Robinho se agachou ao lado do amigo e, sem cerimônia, baixou seu calção, deixando-o apenas de cueca e a camiseta com o escudo da CBF no peito. “Aí eu metralhei”, recorda Vanderlei.

“Porra, tu fez a foto?”, perguntou depois Robinho, de acordo com a memória do fotógrafo. Vanderlei mostrou a imagem no visor da câmera. “Eles ficaram se sacaneando”, ele lembra. Outros jornalistas presentes também caíram na gargalhada.

Vanderlei enviou a imagem para a agência em que trabalhava e foi almoçar. Depois foi ao treino, marcado para aquela tarde. Só aí percebeu o que tinha acontecido.

“A bomba tinha estourado”, ele conta 12 anos depois.

Reprodução/Estado de São Paulo
imagem: Reprodução/Estado de São Paulo

"A crise do calção".

Foi assim que o jornal “O Estado de São Paulo” batizou o pequeno escândalo criado pela foto de Robinho baixando a bermuda de Diego na concentração da seleção brasileira.

Era um time estrelado para os padrões sul-americanos e favorito para chegar à Olimpíada. Os amigos recém-campeões com o Santos já eram tratados como celebridades.

Robinho tinha chegado ao Chile como “o rei das pedaladas” e conquistou a torcida e a imprensa com gracinhas nos treinos e nos momentos de folga. Diego, apesar de mais novo, era considerado mais maduro, mas sempre acompanhava o amigo na algazarra.

Fernando Santos/Folha Imagem
imagem: Fernando Santos/Folha Imagem

“O Robinho sempre foi muito simpático, tinha um jeito muito agradável e você dificilmente ficaria bravo com alguma coisa que ele fizesse”, disse o hoje comentarista da Fox Sports Rodrigo Bueno, que cobriu a seleção no Chile pela “Folha de S.Paulo”. “Bastava um sorriso que ele levava o Diego para as molecagens".

Era apenas uma brincadeira, eles argumentariam depois. Mas de todas as brincadeiras feitas por aqueles adolescentes apenas uma causou consequência inimagináveis.

A piada que mudou o jogo

Eram dois os craques daquele time. Um estava sorrindo para a câmera com as pernas de fora; o outro segurava agachado as calças do primeiro. Deveria ser só uma gracinha, sem maldade, mas quando a foto caiu na internet, a cartolagem da CBF, em um misto de preocupação e puritanismo, reagiu imediatamente.

Um alto secretário telefonou ao Chile a questionar o técnico Ricardo Gomes. A foto não pareceu adequada, era preciso fazer alguma coisa. No dia seguinte, o ex-jogador Branco foi enviado a Concepción com ordens de rever o comportamento dos jogadores, todos menores de 23 anos.

Alguns setores da imprensa também criticaram a falta de seriedade e questionaram se também haveria falta de comprometimento do grupo.

Afinal eles estavam ali para jogar ou para brincar?

Vanderlei Almeida/AFP
imagem: Vanderlei Almeida/AFP

“Houve uma conversa, um alerta dos nossos superiores sobre o que devíamos ou não fazer e ficamos mais atentos”, recorda o zagueiro Adailton, que fez parte daquele time.

No hotel uma placa de publicidade foi estrategicamente posicionada de modo a evitar o contato visual entre jogadores e jornalistas.

Em vez de futebol, passou-se a praticar um jogo de gato e rato. “O Robinho passou a me evitar nos treinos”, lembra o fotógrafo Vanderlei Almeida. “Se eu estava de um lado do campo, ele corria pro outro".

“A cena do calção tornou a seleção mais chata, burocrática”, diz o jornalista Rodrigo Bueno. “Os garotos tiveram que se tolher um pouco, a comissão técnica teve que se preocupar com coisas de fora de campo, foi um divisor de águas.”

A foto de alguma forma influenciou no fracasso do time?

No dia seguinte à brincadeira, a seleção golearia a Venezuela por 4 a 0 na abertura do torneio. Robinho e Diego fizeram gols. “O episódio traduz a alegria e o prazer que nós tínhamos de estar ali defendendo a seleção”, analisa o zagueiro Adailton, que na época tinha 20 anos e hoje joga nos Estados Unidos.

Depois veio uma campanha irregular que terminou com uma derrota para o Paraguai no último jogo. O Brasil ficaria em terceiro lugar e perderia a vaga em Atenas. A narrativa estava completa. A foto de Robinho e Diego foi alçada a símbolo de um suposto “descompromisso” com a seleção.

Zagallo, que compunha a comissão técnica do time principal, foi um dos que fizeram duras críticas ao fracasso no pré-olímpico.  

“Depois da foto, falaram que o nosso grupo era mais de brincadeira e não tinha responsabilidade, mas não foi isso”, disse o goleiro Juninho, que hoje está no Operário-PR. “Nós é que não tivemos competência em campo de conseguir o objetivo.”

O meio-campista Wendel, hoje no Goiás, concorda. “Não associo essa brincadeira com a falta de rendimento da seleção. Foram fatos distintos. [A foto] não influenciou a [não] classificação”, disse ele.

Vanderlei Almeida/AFP
imagem: Vanderlei Almeida/AFP

Robinho não esqueceu

O fotógrafo Vanderlei Almeida continua fazendo cobertura esportiva. Eventualmente, quando Robinho o encontra nos estádios, costuma brincar com ele, dizendo coisas como: “Olha aí, esse é o cara que me f...”.

Além de causar repercussão no Brasil, a foto foi usada em montagens que tiravam sarro da seleção no exterior. Muita gente acreditou que o fotógrafo ganhou muito dinheiro por ter feito a imagem icônica. Contratado da agência “France-Presse” (AFP), ele afirma que não ganha mais ou menos dinheiro por cada foto que tira.

De alguma forma, o fracasso daquela seleção olímpica foi também motivo de pesar para os jornalistas envolvidos na cobertura. “Como o time não classificou, nós também acabamos não podendo ir pras Olimpíadas”, lamenta o autor do clique antes de sair para mais uma pauta olímpica, agora ao lado de casa.

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