César Cielo é o nadador mais rápido do mundo, pelo menos nas Olimpíadas de Pequim. Para continuar ostentando o título por mais tempo, porém, ele sabe que terá uma competição dura pela frente.
"Vi uma vez uma declaração do (bicampeão olímpico russo Alexander) Popov afirmando que chegar ao número 1 não era o mais difícil. O problema era para se manter ali. Aí, sim, vinha muita dor, muita pressão, muita coisa em volta", afirma o nadador paulista.
"A partir de hoje, sei que vai ficar ainda mais difícil para pra me manter onde estou. Agora, eu sou a mira, não estou mirando mais ninguém", analisa Cielo. Para isso, ele espera ainda melhorar sua melhor marca. Nesta sexta-feira, ele nadou os 50 m livre em 21s30, dois centésimos acima do recorde mundial do australiano Eamon Sullivan.
"Vou ter tempo, tenho mais duas Olimpíadas pela frente e agora é buscar sempre o limite e a superação", diz Cielo. "Busquei a minha vida inteira por essa medalha de ouro e agora veio. Esse é só o começo".
Em entrevista, o primeiro campeão olímpico da natação brasileiro fala sobre a prova, a universidade de Auburn, nos EUA, os técnicos australiano Brett Hawke e brasileiro Alberto Silva, o Albertinho, mas não revelou qual era o tempo que pretendia bater nos Jogos. "Ainda estou acima. Quando bater, eu falo para vocês o que está escrito".
Confira a entrevista:Nas semifinais, você disse que ainda não tinha feito a prova perfeita. A final foi perfeita?
Cielo - A minha saída foi um pouco melhor do que ontem (nas semifinais, em que quebrou o recorde olímpico pela primeira vez), mas bem pouquinho mesmo. Mas todo mundo melhorou. Eu sabia que ia precisar melhorar para ficar com o ouro e foquei nos detalhes que fazem a diferença nos 50 m. Fiz uma chegada melhor e baixei o tempo suficiente. Mas é uma prova de 50 metros, que não tem limite, cada hora é uma surpresa. Hoje foi a minha prova, me dei muito bem.
Campeão olímpico, já pensa nos próximos Jogos?
Cielo - Daqui para frente vai ficar ainda mais difícil, mas não posso deixar a peteca cair. O melhor momento que o atleta busca é esse, o ouro. É inexplicável, é minha primeira Olimpíada e já ganhei medalha de ouro, já ganhei medalha de bronze. Vou ter tempo, tenho mais duas Olimpíadas e agora é buscar sempre o limite e a superação.
As duas medalhas chegam em um ano que, até agora, não vinha sendo tão bom para você. Como você lidou com isso?
Cielo - Nessa temporada, parece que deu tudo errado até o bronze dos 100 m livre. Foi lá que começou a dar tudo certo. Fui para o Mare Nostrum (circuito de meetings de natação na Europa) e nadei mal. Quando voltei, o Brett (Hawke, técnico australiano) me falou que eu estava viajando dez horas de avião para tomar coco de todo mundo. Não tive uma medalha, nadando contra todos os caras que iam nadar aqui. Aí, a auto-estima caiu. Mas ele, ainda assim, via que não tinha sido ruim, me disse para relaxar eu tinha nadado cansado e todos os outros estavam descansados. Mas no fundo da minha cabeça, eu não pensava assim.
Você não chegou confiante em Pequim?
Cielo - Não. Olha só. Em Atlanta, quando fiz meu melhor tempo até então nos 50 m livre, quase perdi de um cara que nem o índice tinha feito nos 100 m. E quando cheguei em Macau (para a aclimatação da equipe brasileira), meu braço estava cansado. O Brett insistia que eu não precisava descansar, que não estava fazendo nada o dia inteiro. Eu não me sentia bem, tanto que falei, brincando, com o professor Ricardo (Moura, da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos), que durante a temporada toda eu só me senti bem em um dia, que foi o dia que fiz o 21s75 em Atlanta. Ele me disse que era um bom sinal, que a chance de me sentir bem seria grande nas Olimpíadas, então. O problema é que velocista não escuta. Olhei para ele e pensei que não era ele que estava nadando, que todo dia se sentia mal e estava vendo os adversários quebrarem recorde atrás de recorde mundial.
Quando estreou nas Olimpíadas, então, as coisas melhoraram?
Cielo - Também não. O revezamento 4x100 m livre foi um balde de água fria. Foi duro assistir ao pessoal fazer 47 (segundos) de monte, e eu continuar acreditando que podia nadar rápido. E quando peguei a final dos 100 m na raia oito, meu técnico falou que ainda tinha chance de medalha. Foi aí que eu disse que ele estava louco. Imagina, eu era o oitavo tempo e estava morrendo para nadar a prova. Mas no outro dia, me senti bem, veio o bronze e a coisa começou a fluir.
O que ele falou para você antes da prova?
Cielo - O Brett olhou no meu olho, falou alguns palavrões e me disse: "Você viu, o (norte-americano Michael) Phelps acabou de ganhar por um centésimo. Você tem que ir lá e botar a mão na parede. Você vai ganhar ou vai perder por um centésimo? Está dentro de você, é só deixar sair. Todo mundo viu, todo mundo sabe que você está mais forte e mais rápido do que os outros". Foi o que eu fiz. Não olhei para o lado e fiz a minha prova.
Brett tem parte na medalha?
Cielo - Eu passei três anos nos EUA reclamando todo dia, querendo voltar. Não é fácil ficar lá. Acordava às 5h30 da manhã e ia para a piscina, caía naquela água fria. Falava que iria embora daquele lugar, que não agüentava mais. O Brett não me deixava desistir. E todo dia era a mesma coisa. Mas esses cinco minutos do pódio fazem tudo valer a pena.
Volta para Auburn agora que é ouro olímpico?
Cielo - Eu sei onde é o melhor lugar para mim, o que eu preciso fazer para chegar na forma que cheguei. Então, se tiver de passar mais três anos em Auburn, mais cinco anos, eu passo, porque eu sei que lá é o lugar em que tenho de ficar. O Brett, em uma temporada, achou o meu limite. Achou como dar o treino exato para mim. Apesar de a gente ter brigado muito por toda a temporada.
O Albertinho, seu primeiro técnico em São Paulo, fala de você com muito carinho, como é a relação com ele?
Cielo - Eu tenho uma gratidão muito grande com o Pinheiros. Quando cheguei ao clube, era campeão brasileiro de categorias menores, cheguei eu e minha mãe na cara dura, pedindo pra treinar. Eu me lembro que no primeiro treino, o Albertinho virou para mim e falou "olha, seu nado embaixo da água é igualzinho ao do Gustavo (Borges). Quando tiver a força dele, vai ficar pelo menos igual. A tendência é só melhorar". E fui trabalhando muito a técnica. Nesse caminho, tive os melhores técnicos que podia pedir. O Albertinho, que me acertou toda a técnica, e o Brett que me acertou a velocidade. Foi a combinação perfeita.