UOL Olimpíadas 2008 Notícias

23/07/2008 - 09h01

Governo de Pequim impõe medidas contra diversão

Raul Juste Lores
Da Folhapress
Em Pequim (China)
Uma Olimpíada à prova de diversão parece ser o novo objetivo do zeloso governo chinês. Bares próximos dos locais de competição dos Jogos estão sendo fechados, casas de shows têm apresentações musicais proibidas e um limite ao horário de funcionamento de casas noturnas será imposto.

Na semana passada, o Ministério da Cultura divulgou uma ordem que proíbe a apresentação de artistas estrangeiros que "ameacem a unidade nacional, promovam o ódio étnico ou defendam a obscenidade, o feudalismo e a superstição".

Pelo linguajar da imprensa oficial chinesa, "feudalismo" e "superstição" são associados ao budismo tibetano do líder espiritual exilado dalai-lama.

O governo já tinha anunciado barreiras para a entrada de artistas estrangeiros na semana passada e cancelou festivais de música ao ar livre desde abril. As autoridades têm apenas dito que as medidas são por "questão de segurança".

Onipresentes em Pequim, detectores de metais, câmeras de vigilância, blitze, segurança pesada e restrições a se levar líquidos no metrô se tornaram comuns no mundo pós-11 de setembro, de aeroportos à realização de grandes eventos.

O que Pequim inova é limitar atividades aparentemente inofensivas. O popular bar Stone Boat, dentro do parque Ritan, no centro da cidade, foi proibido de continuar com música ao vivo até outubro. A única boate gay da capital chinesa teve sua pista de dança interditada até segunda ordem. Pequenos bares que serviam de palco a bandas de rock alternativo foram fechados.

O proprietário de um deles disse à reportagem que a prefeitura tem exigido novos alvarás de funcionamento e vistorias do departamento de saúde pública para voltar a abri-los. Ele diz que a prefeitura triplicou as exigências burocráticas, o que deixará muitos locais fechados durante os Jogos.

Seis bares e restaurantes perto do Estádio dos Trabalhadores, onde acontecerão jogos de futebol, estarão fechados por determinação municipal.

A secretaria de Segurança local advertiu proprietários de casas noturnas que elas devem fechar suas portas antes das 2h, lei raramente cumprida.

Atenas e Barcelona entraram para a história olímpica recente como as sedes onde atletas e turistas festejavam nas ruas em plena madrugada. Veteranos de Olimpíadas passadas costumam lembrar como era comum ver espanhóis e gregos tarde da madrugada puxando a folia nas ruas das cidades-sedes. Pelo jeito, se depender do governo local, as noites pequinesas serão silenciosas.

Em maio, um festival de rock alternativo foi cancelado quatro dias antes de sua realização. Algumas bandas estrangeiras estavam programadas.

A onda antidiversão também atinge a prática esportiva em plena cidade olímpica. Ginásios da Universidade de Pequim e da Faculdade de Engenharia Civil, normalmente usados nos finais de semana pelos vizinhos do bairro, estão fechados aos moradores desde o início do mês. A desculpa é a "segurança" na cidade.

"Efeito Björk"
Produtores musicais precisam de permissão do governo para convidar artistas estrangeiros e têm que apresentar antecipadamente uma lista das músicas que serão tocadas.

Alguns deles, ouvidos pela reportagem, chamam as novas proibições de "efeito Björk". Em março, a pop star islandesa encerrou uma apresentação em Xangai cantando "Tibete, Tibete", em meio à canção "Declare Independence" (Declare independência).

A luta pela independência do Tibete é um dos grandes tabus na China. Dez dias depois do show, protestos pela autonomia do Tibete terminaram em uma onda de repressão que fechou a Província separatista a visitantes estrangeiros por três meses.

Com o risco de novos artistas estrangeiros falando de direitos humanos ou dos tibetanos, o governo preferiu dificultar a presença deles nos palcos.

Poucos artistas pop estrangeiros incluem Pequim nas turnês. No primeiro semestre de 2008, só o cantor britânico James Blunt cantou na cidade. Céline Dion, a mais popular cantora ocidental na China, cancelou seu show de última hora. Curitiba ou Belo Horizonte costumam ter mais shows internacionais que a metrópole chinesa.

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