15/07/2008 - 15h18
Inglês e basquete unem Cabo Verde em jornada surpreendente
Giancarlo Giampietro
Em Atenas (Grécia)
O idioma oficial de Cabo Verde é a língua portuguesa, mas, para a metade do elenco da seleção africana, a eliminação no Pré-Olímpico mundial de basquete, nesta terça-feira, vale um goodbye.
Maior surpresa dos torneios de qualificação continentais do ano passado, posicionado à frente de rivais bem mais tradicionais como Nigéria e Senegal, o time se despediu da competição ateniense com a derrota para a Alemanha por 104 a 68.
Os jogadores podem passar alguns dias de férias em Atenas, sede do torneio. Depois vem a hora de cada um retornar à sua terra natal. E para apenas cinco deles isso significa voltar ao arquipélago dez ilhas localizado no Atlântico, a 620 km da costa de Senegal.
Cabo Verde possui uma curiosidade demográfica: há mais cidadãos emigrantes do que no território do país. Essa discrepância se faz representada na seleção. A maioria nasceu em território estrangeiro - seis nos Estados Unidos e um na Holanda.
Para os norte-americanos, o contato com as raízes é restrito às lembranças dos membros mais velhos da comunidade, que se concentra no Estado de Massachusetts. "Eu visitei o país pela primeira vez neste ano, no início da nossa fase de preparação", afirmou o armador Jeff Xavier, cujos pais nasceram na capital Praia, e é natural de Providence. Em sua opinião, vive "no melhor país do mundo".
A modalidade é um esporte com popularidade em ascensão entre os cabo-verdianos dos Estados Unidos. "As crianças têm crescido em torno do basquete, que não é tão grande como o futebol, e isso me deixa muito feliz, já que vejo os mais jovens se interessando e posso dar um motivo para elas sorrirem", disse o ala Tony Barros, primo do ex-jogador da NBA Dana Barros, que já marcou 50 pontos em uma partida da liga.
Nem barros, nem Xavier falam português. Eles apenas arranham algumas palavras do crioulo cabo-verdiano, língua que adapta a portuguesa a um idioma local e tem suas variantes para cada ilha.
Dessa forma, a comunicação do time fica um pouco acidentada. "É difícil. Falo um pouco de espanhol e crioulo. Mas o inglês é sempre a salvação. O técnico [Eric Silva, que nasceu no Senegal] fala muito mal, mas conseguimos nos acertar com a ajuda de um tradutor", disse Barros. Rodrigo Mascarenhas, o de origem holandesa, fala português, mas confirma que o inglês acaba sendo o idioma mais utilizado para unir um time cujos membros pouco se conheciam antes de entrar na seleção.
Apesar do distanciamento do arquipélago, o basquete ajudou os jogadores no desenvolvimento do patriotismo. O outro time africano do Pré-Olímpico, Camarões, ameaçou não entrar em quadra por não receber pagamento da federação. Eles teriam alguma afinidade por esse tipo de atitude?
"Não recebemos também nenhuma ajuda. No fim do dia, não recebemos nada. É duro, claro, enfrentar essa situação. Mas não posso sentir nenhuma simpatia por isso. Fazemos isso por nosso país e por nosso orgulho, para nós", completou Barros.