Pai realiza sonho da família e "coloca dentes" para ver filho na Olimpíada

Felipe Pereira
Do UOL, no Rio de Janeiro

Severino Borges, 58 anos, é pai de um atleta olímpico. Morador da favela do Vidigal, no Rio de Janeiro, ele abdicou de si por quatro décadas em nome da família. Deu resultado.


No último domingo, Michel Borges, 25, subiu ao ringue a uma vitória de garantir ao menos a medalha de bronze no boxe. A participação do filho na Olimpíada era tão especial que Severino realizou um sonho adiado desde a juventude: "colocou dentes".

“Acho que a maior vitória dessa Olimpíada foi meu pai ter colocado esses dentes”, afirma Maristele Borges, 23, irmã do atleta.

Ela conta que jamais havia visto o pai com a dentição perfeita. A demora em resolver a situação não é desleixo ou falta de vaidade. Severino trabalhou e ainda trabalha sábados, domingos, feriados e natais para sustentar a família.

Pedreiro, aceitou o sacrifício para que os filhos fizessem as duas coisas que mais desejava ter feito na juventude: se dedicado ao estudos e aos treinamentos de boxe. A devoção à família foi paga com situações constrangedoras.

Ele evitava rir porque tinha apenas dois dentes. Quando era impossível segurar a vontade, abaixava a cabeça. O resultado da ida pré-Olimpíada ao dentista deixou Maristele comovida.

“Ele nunca sorria assim [encara o interlocutor], olhando. Sempre tímido. Eu senti vontade de chorar porque nunca tinha visto meu pai de dente”, afirmou.

Colocar uma dentadura foi uma promessa de Severino por dois motivos. Ele disse que não iria ver Michel lutar na Rio-2016 se não resolvesse o problema. O pedreiro também deu a palavra de que não estaria na formatura em Direito de Camila, a filha mais velha, caso não pudesse sorrir para as fotos.

Mas todo o processo para “colocar dentes” foi feito na surdina. Faltando duas semanas para a cerimônia de abertura, Severino surpreendeu a mulher e as quatro filhas ao chegar ao Vidigal com uma dentadura. Michel estava na reta final de preparação e não viu o pai naquela hora, mas logo ficou sabendo da novidade.

Arquivo pessoal


O maior dia da carreira de Michel

Foi com o sorriso novo que Severino se preparou para ir ao Pavilhão 6 do Riocentro, local do torneio olímpico de boxe. A data da luta mais importante da carreira de Michel não poderia ser mais especial para o homem que apresentou o atleta ao esporte: o Dia dos Pais.

O vencedor avançaria à semifinal e, no boxe, chegar a essa fase garante o bronze. Quando o filho de Severino foi anunciado no ginásio, milhares de torcedores gritaram e marretaram os pés na estrutura de metal das arquibancadas. O barulho rivalizava fácil com o de um estádio de futebol.

Logo surgiu o coro de “Uh Vidigal, Uh Vidigal” mostrando que familiares e amigos de Michel estavam em peso no Pavilhão 6. Só havia uma ausência: o sorriso novo de Severino.

O pedreiro sofre de nevralgia, uma dor intensa e aguda em um ou mais nervos do corpo. No caso dele, os nervos do rosto. A esposa, Maria Clenilda, conta que ouviu de outras mulheres que é pior que a dor do parto. O jeito foi assistir de casa.

Mas as quatro irmãs de Michel, a mãe e a mulher dele estavam nas arquibancadas fazendo muito barulho. Em três rounds de três minutos elas gritaram “Vai Michel” um milhão de vezes. A empolgação sugeria certeza de vitória. Mas os juízes viram outra luta.

O cubano Julio Cesar La Cruz venceu por unanimidade. Houve tristeza na família Borges e eles consolaram uns aos outros. Mas não foi aquela sensação de luto.

O ânimo não demorou a ser retornando. Passados 10 minutos do gongo final, uma das filhas ensaiava alguns passos enquanto o DJ tocava Diamonds, de Rihanna.

PETER CZIBORRA/REUTERS


Vida que segue

Sentada no canto da escada de acesso à arquibancada para não atrapalhar a passagem dos torcedores, a família Borges esperou Michel. Quando o pugilista apareceu, a mãe e as quatro filhas fizeram fila para o abraço antes de pegarem o ônibus de volta para o Morro do Vidigal.

Em pé no fundo do ônibus, Maria Clenilda e as filhas estavam serenas. A doença de Severino preocupava mais que a derrota de Michel. Normal. Para elas, a família vem muito antes de qualquer medalha.

Maria Clenilda acrescentava que a preocupação na criação dos filhos foi a educação e que pegassem gosto por trabalhar. Nunca esteve nos planos formar um atleta profissional. Maristele conta que o maior ensinamento do pai foi jamais pisar em ninguém, mas também não aceitar ser rebaixado.

Ela repetiu uma história que ouviu do pai mais de uma vez. Severino dizia que em várias ocasiões fez trabalhos na casa de ricaços que, sem sucesso, tentaram humilhar o pedreiro favelado e sem estudos. Outra diretriz dos Borges é o amor e o respeito dentro da família. Essas lições foram assimiladas pelos cinco filhos.

É o que importa. A medalha é “um detalhe, a cereja do bolo”, como diz a futura advogada Camila.

Saulo Cruz/COB